domingo, 10 de janeiro de 2010

Despedida em Las Vegas (EUA/1995)




Título original: Leaving Las Vegas

Diretor: Mike Figgis

Roteiro: Mike Figgis, baseado em livro de John O'Brien

Talvez, na história das diversas artes no século XX, o tema do amor tenha sido o mais exaustivamente abordado. O cinema, arte nascente no século passado, não fugiu a regra, e principalmente graças à indústria norte-americana de produção de filmes, leia-se Hollywood, construiu ao longo das décadas uma concepção idealizada do amor romântico, disseminando-a no imaginário coletivo.

O filme de Mike Figgis se afasta desse estereótipo, tratando o amor em sua expressão-limite: como uma necessidade ante a aspereza da vida. Essa é a principal causa da aproximação entre o alcoólatra Ben Sanderson e a prostituta Sera. A busca do conforto ante o preconceito social conduz o enlace de Ben e Sera, marcada pela aceitação recíproca da vida que levam. Em cena que sela o pacto dessa relação compreensiva, Ben diz à Sera: Vou te dizer agora, estou apaixonado por você. Mas, seja como for, não estou aqui para forçar minha alma perdida para dentro de sua vida. (...) Espero que você entenda que sou uma pessoa que lida muito bem com isso, ou que não quer dizer que sou indiferente ou que não me importo. Me importo. E isso significa que confio e aceito o seu julgamento.

A relação é assim construída, com o preenchimento afetivo e a compreensão mútua se sobrepondo ao sexo. A resignação, ou dependência, de Sera resiste inclusive às eventuais falas ofensivas de Ben, que ocorrem exatamente quando este percebe um envolvimento mais sério. E é quando o julgamento aparece, sobre a forma da pontual preocupação de Sera quanto a saúde de Ben , que a relação estremece de vez, provocando a “traição” sexual de Ben e a sua expulsão da casa da prostituta. Como bem descreve a sinopse do filme, o vício de Ben torna-se tão incontrolável que nem o amor de Sera é capaz de reverter. A percepção dessa censura, que o sentimento impõe, faz Ben se afastar, seguindo o rumo que traçara (ou antes constatara): a morte através da bebida. Os elementos morais convencionais, relacionados ao sexo, por exemplo, aparecem nesse instante, indo de contra ao que a união de ambos representava: a rejeição dos padrões sociais.

A volta de Sera ao moribundo Ben, após episódios seguidos de exclusão e violência no exercício de sua profissão, encerra de forma magnífica o filme, realizando-se através da tão desejada relação sexual, sofrida, quase fúnebre. Muito mais do que um filme sobre alcoolismo, Leaving Las Vegas é um filme sobre amor, mas distante do idealismo consumista de hollywoodiano, um sentimento plenamente realista. Não obstante, distancia-se da concepção de amor pós-romântico atual, em voga em filmes como “Vicky Cristina Barcelona”, que afirma que este só  ocorre quando não realizado. O de Sera e Ben se realiza no limite do possível, do imponderável das necessidades reais afetivas, em reação exatamente à condição existencial de marginalização que cada um vive. E é nesse limite que esse amor é vivido em sua máxima beleza e plenitude, dada a cumplicidade construída na expectativa de ambos: compreensão.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Vício Frenético (EUA/2009)
















Título Original: Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans
Diretor: Werner Herzog
Roteiro: William M. Finkelstein, baseado em roteiro de Zoë Lund, Abel Ferrara, Paul Calderon e Victor Argo.

"This is a government of law, not of men." Eis o lema que aparece  na fachada do palácio de justiça de Port of Call, Nova Orleans. Não obstante, o que Werner Herzog busca mostrar em seu mais recente filme é exatamente que a lei está a mercê dos homens, suas paixões, interesses e vícios,  e estes, por sua vez, nas mãos da fortuna, do acaso.

E é o acaso que leva o protagonista, o detetive Terence Macdonald ao posto de tenente. Ao salvar um prisioneiro do afogamento, ganha a promoção, mas também  um problema nas costas que acaba o levando ao mundo das drogas, primeiramente a partir de analgésicos para as dores crônicas, e depois da cocaína, crack e tudo o mais o que lhe caí nas mãos. A interpretação alucinante de Nicolas Cage dá o tom corretíssimo  à frenética rotina do tenente, que renega toda a moralidade e ética profissional no exercício de sua função, sempre sob efeito das drogas e em busca de mais. A aplicação da lei, o exercício da justiça é submetida às implicações de seu agente investigador, que por sua vez é refém dos caminhos sem rumo que o vício lhe coloca e aos seus próximos.

Assim,  é pelos caminhos tortuosos da vida dos homens, e não pelo caminho reto e ideal da função policial, que a ordem e justiça se realiza em Port of Call, ou em qualquer outro lugar. Logo, acima do governo da lei, impera o dos homens, e principalmente o que há de irracional em suas relações.