domingo, 14 de março de 2010

Uma crítica afetada pela transferência


Filme: 500 dias com ela ((500) days of summer)
Diretor: Marc Webb
Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber
País: EUA
Ano: 2009

Já li muitas críticas sobre 500 dias com ela, e a sua quase totalidade é composta por uma postura de desaprovação ao filme. O cerne das críticas fundavam-se no abuso dos clichês e referências do filme , que em sua tentativa de identificar-se ao cinema alternativo bem-sucedido - filão do qual temos como exemplos recentes Pequena Miss Sunshine e Juno - acabaria por mostrar-se inconsistente.

Não que desaprove totalmente alguns argumentos dos críticos. Sim, existe um certo abuso de clichês, um show de citações que vão de A Primeira Noite de um Homem ao Sétimo Selo, passando por Acossado. Mas não é isso o mais importante, o que faz desse filme deveras especial. Na verdade, é muito difícil colocar-me na posição de crítico diante desse filme. Houve uma transferência - no sentido psicanalítico do conceito - que me afetou de forma inevitável. Portanto, não há como escrever sobre ele sem levar em conta essa afetação.

Voltemos à sinopse: Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt), um acomodado escritor de cartões, se apaixona por Summer Finn (e a do título original) (Zooey Deschanel), a nova funcionária da empresa em que trabalha. Ele acredita em todos os clichês sobre o amor, como diz na entrada, influenciado pelo triste música pop britânica e pela má compreensão de A Primeira Noite de um Homem. Ela, não acredita no amor, e somente ama a beleza de seus longos cabelos negros e a facilidade com que consegue cortá-lo, sem sentir nada, anunciando assim sua dificuldade em criar vínculos, ou sua facilidade em desfazê-los. A estória do filme é a estória desse encontro, da idealização à realidade, e o percurso de um luto.

O narrador em off anuncia logo de saída: “essa não é uma estória de amor”. Zooey Deschanel e Joseph Gordon-Levitt dão o tom certo aos seus personagens, a primeira emprestando sua beleza digna de Jean Seberg e o seu ar misterioso à protagonista (o que não é preciso muito: a câmera parece gostar muito dela) ; enquanto Joseph consegue passar muito bem a inocência, o entusiasmo e a frustração do início e fim de um grande amor. A linguagem cinematográfica e as referências são usadas com esmero na construção dessa narrativa. Assim como Tom a descreve, apaixonado, e a sua descrição é intercalada com imagens em cortes rápidos de Summer, ilustrando as qualidades enumeradas e ressignificando um recurso utilizado por Godard em Acossado. Outro momento de criatividade aparece também na caracterização do estado encantado de Tom após sua primeira relação sexual com Summer, encantamento traduzido no musical que se transforma o seu trajeto de casa ao trabalho, marcado também pelo engraçado aparecimento do elemento simbólico do passarinho azul, em forma de animação.

Se a narrativa em off dá um certo tom de conto de fadas à estória, fazendo o paradoxo irônico com a “realidade” que se está assistindo; a descontinuidade da estrutura, ora avançando para seu estado de luto, ora voltando para o momento ascendente da relação, marcado pelo número do dia dentre os 500 que marcam a estória, passa ao espectador o sentido de seu desespero e desânimo. Cria-se uma empatia com o desolado, que ainda se encontra investido de sentimentos pela cruel (de minha parte) Summer, que o deixara (aparentemente) sem mais nem menos.

Outro momento de destaque ocorre quando Tom reencontra Summer após algum tempo, pela ocasião do casamento de uma colega de trabalho, e durante o evento, ela o convida para uma festa em sua casa. A distância entre a expectativa criada e a realidade é demonstrada paralelamente, em duas telas, uma contando o desenrolar esperado, outra o efetivo. Em seguida, a desolação do rapaz que enxerga a sua amada se comprometendo com outro é ilustrada numa belíssima cena, onde após sua corrida do apartamento de Summer até a noturna rua, descolore-se o seu redor em preto e branco, e em seguida sua forma enegrecida é envolvida por um ambiente acinzentado, sintonizando-nos ao golpe que acabara de sofrer em suas pretensões.

Não obstante meu total encantamento com este filme, tenho que constatar que ele é fruto de uma identificação, de uma transferência direta, de quem viveu os grandes momentos – com todas as suas idealizações - e frustrações – na qual essas idealizações dão o peso da desilusão – de um grande amor. E se por um lado se sofre devido a empatia com o protagonista; por outro existe no fim dessa estória de luto a mensagem positiva de que, se o amor pode ser efêmero, assim também pode ser a dor; e lidar com esta realidade nos faz encarar com otimismo a possibilidade de um novo recomeço, e as experiências possíveis e sublimes da novidade.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Quando a forma estraga o conteúdo




Filme: Um olhar do paraíso (The lovely bones)
Diretor: Peter Jackson
Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson, baseados em livro de Alice Sebold
País: Nova Zelândia/Reino Unido/EUA
Ano: 2009

Não sou um teórico de cinema. Sou apenas um fã incondicional da sétima arte. E é exatamente nessa condição que me ponho a escrever sobre filmes. Como não sou teórico, me sinto limitado em reflexões sobre questões mais técnicas, estéticas, semióticas, etc. O que me sobra, portanto, livre do compromissos mais convencionais dos especialistas no métier, é a opinião do leigo, talvez do historiador, que se coloca como formador de opinião.

Para escrever sobre "Um olhar do paraíso", vou falar sobre algo primário, que está no cerne da motivação que me leva a sair de casa, pegar um ônibus, e ir ao cinema. Este básico consiste simplesmente em assistir uma boa estória. Desta feita, o básico que um cineasta deve fazer, para me agradar, é utilizar cada fotograma de imagem e som que ele possui e construir uma narrativa a contento. Por vezes, nem ligo para a riqueza ou pobreza de estilo, não é incomum uma comédia romântica boba, com um enredo simples, me emocionar. É óbvio que os grandes do cinema vão além da simples tarefa de contar uma estória, vão fundo na utilização dos planos, do som, etc. Porém, há sempre uma narrativa implícita, com um sentido que force mais ou menos a reflexão do espectador. 

Em tempos de tecnologia digital, 3D, as formas de se contar uma estória se multiplicaram. Porém, às vezes esse excesso de possibilidades parece atrapalhar os autores no trabalho do conteúdo narrativo. É o que ocorre com "Um olhar do paraíso". Fascinado pelas novas gerações de efeitos visuais desde a trilogia "Senhor dos Anéis", Peter Jackson errou feio a mão. Faz da caracterização do "paraíso" do título um amálgama confuso de efeitos que, além de muito entediantes, atravanca e confunde o desenvolvimento da narrativa, deixando-a inclusive num plano secundário.  Estraga assim um argumento com grande potencial dramático e um elenco de grande qualidade, que ante a megalomania imagética do diretor, fazem o que podem, o que infelizmente não é o suficiente para salvar o filme.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Despedida em Las Vegas (EUA/1995)




Título original: Leaving Las Vegas

Diretor: Mike Figgis

Roteiro: Mike Figgis, baseado em livro de John O'Brien

Talvez, na história das diversas artes no século XX, o tema do amor tenha sido o mais exaustivamente abordado. O cinema, arte nascente no século passado, não fugiu a regra, e principalmente graças à indústria norte-americana de produção de filmes, leia-se Hollywood, construiu ao longo das décadas uma concepção idealizada do amor romântico, disseminando-a no imaginário coletivo.

O filme de Mike Figgis se afasta desse estereótipo, tratando o amor em sua expressão-limite: como uma necessidade ante a aspereza da vida. Essa é a principal causa da aproximação entre o alcoólatra Ben Sanderson e a prostituta Sera. A busca do conforto ante o preconceito social conduz o enlace de Ben e Sera, marcada pela aceitação recíproca da vida que levam. Em cena que sela o pacto dessa relação compreensiva, Ben diz à Sera: Vou te dizer agora, estou apaixonado por você. Mas, seja como for, não estou aqui para forçar minha alma perdida para dentro de sua vida. (...) Espero que você entenda que sou uma pessoa que lida muito bem com isso, ou que não quer dizer que sou indiferente ou que não me importo. Me importo. E isso significa que confio e aceito o seu julgamento.

A relação é assim construída, com o preenchimento afetivo e a compreensão mútua se sobrepondo ao sexo. A resignação, ou dependência, de Sera resiste inclusive às eventuais falas ofensivas de Ben, que ocorrem exatamente quando este percebe um envolvimento mais sério. E é quando o julgamento aparece, sobre a forma da pontual preocupação de Sera quanto a saúde de Ben , que a relação estremece de vez, provocando a “traição” sexual de Ben e a sua expulsão da casa da prostituta. Como bem descreve a sinopse do filme, o vício de Ben torna-se tão incontrolável que nem o amor de Sera é capaz de reverter. A percepção dessa censura, que o sentimento impõe, faz Ben se afastar, seguindo o rumo que traçara (ou antes constatara): a morte através da bebida. Os elementos morais convencionais, relacionados ao sexo, por exemplo, aparecem nesse instante, indo de contra ao que a união de ambos representava: a rejeição dos padrões sociais.

A volta de Sera ao moribundo Ben, após episódios seguidos de exclusão e violência no exercício de sua profissão, encerra de forma magnífica o filme, realizando-se através da tão desejada relação sexual, sofrida, quase fúnebre. Muito mais do que um filme sobre alcoolismo, Leaving Las Vegas é um filme sobre amor, mas distante do idealismo consumista de hollywoodiano, um sentimento plenamente realista. Não obstante, distancia-se da concepção de amor pós-romântico atual, em voga em filmes como “Vicky Cristina Barcelona”, que afirma que este só  ocorre quando não realizado. O de Sera e Ben se realiza no limite do possível, do imponderável das necessidades reais afetivas, em reação exatamente à condição existencial de marginalização que cada um vive. E é nesse limite que esse amor é vivido em sua máxima beleza e plenitude, dada a cumplicidade construída na expectativa de ambos: compreensão.