Título original: Leaving Las Vegas
Diretor: Mike Figgis
Roteiro: Mike Figgis, baseado em livro de John O'Brien
Talvez, na história das diversas artes no século XX, o tema do amor tenha sido o mais exaustivamente abordado. O cinema, arte nascente no século passado, não fugiu a regra, e principalmente graças à indústria norte-americana de produção de filmes, leia-se Hollywood, construiu ao longo das décadas uma concepção idealizada do amor romântico, disseminando-a no imaginário coletivo.
O filme de Mike Figgis se afasta desse estereótipo, tratando o amor em sua expressão-limite: como uma necessidade ante a aspereza da vida. Essa é a principal causa da aproximação entre o alcoólatra Ben Sanderson e a prostituta Sera. A busca do conforto ante o preconceito social conduz o enlace de Ben e Sera, marcada pela aceitação recíproca da vida que levam. Em cena que sela o pacto dessa relação compreensiva, Ben diz à Sera: Vou te dizer agora, estou apaixonado por você. Mas, seja como for, não estou aqui para forçar minha alma perdida para dentro de sua vida. (...) Espero que você entenda que sou uma pessoa que lida muito bem com isso, ou que não quer dizer que sou indiferente ou que não me importo. Me importo. E isso significa que confio e aceito o seu julgamento.
A relação é assim construída, com o preenchimento afetivo e a compreensão mútua se sobrepondo ao sexo. A resignação, ou dependência, de Sera resiste inclusive às eventuais falas ofensivas de Ben, que ocorrem exatamente quando este percebe um envolvimento mais sério. E é quando o julgamento aparece, sobre a forma da pontual preocupação de Sera quanto a saúde de Ben , que a relação estremece de vez, provocando a “traição” sexual de Ben e a sua expulsão da casa da prostituta. Como bem descreve a sinopse do filme, o vício de Ben torna-se tão incontrolável que nem o amor de Sera é capaz de reverter. A percepção dessa censura, que o sentimento impõe, faz Ben se afastar, seguindo o rumo que traçara (ou antes constatara): a morte através da bebida. Os elementos morais convencionais, relacionados ao sexo, por exemplo, aparecem nesse instante, indo de contra ao que a união de ambos representava: a rejeição dos padrões sociais.
A volta de Sera ao moribundo Ben, após episódios seguidos de exclusão e violência no exercício de sua profissão, encerra de forma magnífica o filme, realizando-se através da tão desejada relação sexual, sofrida, quase fúnebre. Muito mais do que um filme sobre alcoolismo, Leaving Las Vegas é um filme sobre amor, mas distante do idealismo consumista de hollywoodiano, um sentimento plenamente realista. Não obstante, distancia-se da concepção de amor pós-romântico atual, em voga em filmes como “Vicky Cristina Barcelona”, que afirma que este só ocorre quando não realizado. O de Sera e Ben se realiza no limite do possível, do imponderável das necessidades reais afetivas, em reação exatamente à condição existencial de marginalização que cada um vive. E é nesse limite que esse amor é vivido em sua máxima beleza e plenitude, dada a cumplicidade construída na expectativa de ambos: compreensão.

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