sábado, 29 de janeiro de 2011

Um mundo que nós perdemos



Filme: O mágico (L’Illusionniste)
Direção: Sylvain Chomet
Roteiro Adaptado: Sylvain Chomet
Roteiro Original: Jacques Tati
País de Produção: Inglaterra/França
Ano: 2011

Quando ouvimos falar em entretenimento nos dias atuais, logo remetemos a coisas como indústria, televisão, cinema, jogos eletrônicos, música. Em torno desses referenciais, existe algo que é comum: tecnologia. Nossos olhos e nossa atenção são absorvidos pela catártica geração de imagens e sons, onde a participação direta e unívoca do homem desapareceu para dar lugar a máquina.

Houve um tempo, não tão distante assim, onde entretenimento significava outra coisa, completamente distinto dos caracteres industriais e tecnológicos atuais. Era um tempo onde o simples truque do mágico, como tirar coelhos da cartola ou lenços infinitos da manga, encantava platéias inteiras, que assustavam-se com a “sobrenaturalidade” dos truques. Tal assombro também era produzido pelo boneco do ventriloqüista, cuja voz saía não se sabe de onde. Era um tempo onde as esquetes repetidas do palhaço - como a flor da lapela que soltava água, ou da cadeira retirada que derruba alguém – produzia risos intensos. Mas onde foram parar o mágico, o ventriloquista, o palhaço? Por que não divertem nem encantam mais?

Sob esse pano de fundo central, a animação anglo-francesa “O mágico” conta a estória da decadência- talvez fosse menos cruel falar do sair de cena - desses personagens, tornados obsoletos e disformes ante uma sociedade que perdeu a sua inocência com a urbanização e o desenvolvimento da técnica e da tecnologia. O fim desse mundo encantado e a perda da referida inocência são ilustrados centralmente através dos protagonistas da animação: o personagem-título e a pequena Alice, que encantada com a magia do velho artista, segue-o do seu mundo rústico para a urbana Londres. Uma cena interessante, que caracteriza de forma singela e engraçada a substituição do encantamento “sobrenatural” da magia pelo da tecnologia, ocorre na taberna do povoado, onde a menina trabalha como faxineira, quando as pessoas em volta demonstram a mesma reação aos truques do mágico, ao acender de uma lâmpada e a música da junkebox.

Mas é um mundo ainda encantado, e a pequena Alice segue o mágico para a cidade, com a ilusão de que o homem que segue é capaz de conseguir tudo com seu poder. Enternecido com a menina, o artista a acolhe, e acaba por apresentá-la a um mundo distinto, de carros velozes, de mulheres em vestidos, sapatos e hábitos refinados, de movimento, aceleração. Uma realidade onde os “artistas da inocência” passam a ocupar um lugar cada vez mais marginal, perdendo o público (as novas gerações) e seus aplausos para as bandas de rock e as novas tecnologias do entretenimento. Nessa situação, a necessidade de encontrar outro lugar, longe dos palcos, onde seus talentos sirvam, o desemprego, o alcoolismo e até mesmo o suicídio são os temas que pintam o quadro triste de suas vidas. O mágico tenta, com todo esforço e no limite que a sua habilidade de iludir e sua parca renda permitem, prolongar a ilusão da menina. Entretanto, o véu de sua inocência vai aos poucos cedendo ao encanto da urbe, até o seu ato final – a descoberta do amor.

Tomando como matéria-prima o roteiro do célebre Jacques Tati (cineasta francês autor de comédias inesquecíveis, que foi uma das principais influências da geração de Chabrol, Truffaut, Godard, Rohmer), Sylvain Chomet dirige uma animação de extrema sensibilidade, celebrando o cinema ao contar uma estória por imagens (as falas são quase inexistentes), além da belíssima trilha sonora, que compõe sem excessos a narrativa. No entanto, a celebração do cinema em sua essência não lhe furta à constatação de que a “sétima arte” é um dos frutos dessa modernidade, na cena do espanto do mágico ao encontrar um projeção numa sala que antes recepcionava seus truques.

Uma inocência perdida, de um mundo que perdemos e sem chance de voltar atrás. Um filme onde o singelo serve ao espetáculo, encantando. Milhões de aplausos ao apagar das luzes.

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