domingo, 20 de janeiro de 2013

A professora de piano




Título original: La pianiste
País de Produção: Áustria/França
Ano: 2000
Diretor: Michael Haneke
Roteiro: Michael Haneke, adaptado do livro The piano teacher, de Elfriede Jeliek.

Não posso negar que tenho uma predileção por determinados tipos de filme. Não é uma questão de gênero cinematográfico, mas sim de percepções sobre o ser humano. Gosto daqueles filmes que me fazem revirar o estômago, que representam o que há de violento, imoral, cruel ou perverso nas relações humanas. Não acredito que fazer esse tipo de cinema implique necessariamente em pregar-se uma crença na natureza má do homem (embora cineastas como Lars Von Trier afirmem possuí-la), mas um esforço de compreensão da complexidade dos comportamentos sociais. Portanto, mesmo que por um viés mais espinhoso, representa uma reflexão profunda do ser humano. 

Dentro deste tipo de cinema, acredito não haver, na atualidade, cineasta como o austríaco Michael Haneke. Representar a perversão e a irracionalidade dos comportamentos humanos é praticamente a razão de ser seu cinema,  que com sua forma de filmar, abusando dos planos longos e por vezes quase estáticos, desnuda de maneira quase sádica ao expectador.

Em La pianiste (traduzido para o público brasileiro como “A professora de piano”), Haneke nos apresenta a estória de Érika Kohut,  uma professora de piano de meia idade, para refletir a relação entre a repressão, seja aquela oriunda da família ou de uma profissão que exige o limite extremo da dedicação, e a perversão moral e sexual. Bem sucedida num ofício que exige grande sacríficio desde a tenra idade, a protagonista divide o apartamento com sua mãe, que a censura nos mínimos detalhes de sua vida. Embora reaja às humilhações da genitora, chegando por vezes às vias de fato, Érika aceita a situação, demonstrando eventualmente arrependimento por suas reações. A ausência de qualquer expressividade afetiva, a altivez arrogante no trato com os alunos e os colegas de profissão, a rigidez e a violência do seu olhar e a economia austera dos gestos são aspectos marcantes na caracterização da protagonista, interpretada magistralmente por Isabelle Huppert.

A violência moral sofrida em casa é reproduzida no ambiente de trabalho pela professora, que ministra suas aulas com extrema rigidez, chegando às raias da humilhação na exigência da entrega de seus alunos ao piano. A repressão moral familiar e os sacrifícios profissionais engendram na protagonista uma série de comportamentos sexuais desviantes, marcados pelo masoquismo, o voyeurismo e a escatologia. Na busca pelo prazer, a professora mutila sua vagina com uma lâmina, frequenta cabines de filmes eróticos nas quais excita-se sorvendo o sêmen deixado por outros frequentadores, urina enquanto assiste aos casais se agarrando no drive-in.

O caráter perturbador deste comportamento sexual fica latente quando se depara com Walter Klemmer (Benoit Magimel), um jovem e talentoso pianista que admirado com a execução de Schubert da professora, se apaixona e busca aproximar-se. Apesar da rejeição inicial, em que desmerece seu talento e refrata rispidamente suas investidas, Érika vai desenvolvendo aos poucos seu desejo pelo belo rapaz, expressando-o de forma violenta ao, por exemplo, buscar ferir uma aluna por quem Klemmer demonstrou carinho. Esta ação é exemplar também de sua crueldade, uma vez que a aluna ferida é apresentada como uma ameaça a supremacia do talento da professora. A revelação do interesse recíproco entre Érika e Walter marca o início de um jogo sádico de repulsa e atração, de dominação e submissão, no qual o jovem vai se envolvendo até perder o controle.  

La pianiste  é, sem sombra de dúvidas, um prato cheio para análise do comportamento humano. Se neste filme, Michael Haneke explora no microcosmo de um indivíduo o desenvolvimento de comportamentos “patológicos” condicionados pela repressão moral – constituindo-se por isso um excelente objeto de análise e reflexão para aqueles que dominam os instrumentos teóricos da psicanálise e da psicologia – apenas faz parte de uma obra cinematográfica maior e ainda em desenvolvimento, no qual busca-se perceber a perversidade e violência a partir de diversas perspectivas  (como em A Fita Branca, onde dá maior atenção a reprodução cultural da violência simbólica; ou em Caché, onde busca compreender a violência pelo lado das relações de dominação econômica).

Para este cineasta, expor a crueza do real, no que há de mais incômodo e chocante, é sua função. O que fazer com isso fica por conta do expectador.  Mas não existe transformação onde há conforto.

Para outras críticas deste filme: 

http://www.contracampo.com.br/31/lapianiste.htm
                                                        


sábado, 29 de janeiro de 2011

Um mundo que nós perdemos



Filme: O mágico (L’Illusionniste)
Direção: Sylvain Chomet
Roteiro Adaptado: Sylvain Chomet
Roteiro Original: Jacques Tati
País de Produção: Inglaterra/França
Ano: 2011

Quando ouvimos falar em entretenimento nos dias atuais, logo remetemos a coisas como indústria, televisão, cinema, jogos eletrônicos, música. Em torno desses referenciais, existe algo que é comum: tecnologia. Nossos olhos e nossa atenção são absorvidos pela catártica geração de imagens e sons, onde a participação direta e unívoca do homem desapareceu para dar lugar a máquina.

Houve um tempo, não tão distante assim, onde entretenimento significava outra coisa, completamente distinto dos caracteres industriais e tecnológicos atuais. Era um tempo onde o simples truque do mágico, como tirar coelhos da cartola ou lenços infinitos da manga, encantava platéias inteiras, que assustavam-se com a “sobrenaturalidade” dos truques. Tal assombro também era produzido pelo boneco do ventriloqüista, cuja voz saía não se sabe de onde. Era um tempo onde as esquetes repetidas do palhaço - como a flor da lapela que soltava água, ou da cadeira retirada que derruba alguém – produzia risos intensos. Mas onde foram parar o mágico, o ventriloquista, o palhaço? Por que não divertem nem encantam mais?

Sob esse pano de fundo central, a animação anglo-francesa “O mágico” conta a estória da decadência- talvez fosse menos cruel falar do sair de cena - desses personagens, tornados obsoletos e disformes ante uma sociedade que perdeu a sua inocência com a urbanização e o desenvolvimento da técnica e da tecnologia. O fim desse mundo encantado e a perda da referida inocência são ilustrados centralmente através dos protagonistas da animação: o personagem-título e a pequena Alice, que encantada com a magia do velho artista, segue-o do seu mundo rústico para a urbana Londres. Uma cena interessante, que caracteriza de forma singela e engraçada a substituição do encantamento “sobrenatural” da magia pelo da tecnologia, ocorre na taberna do povoado, onde a menina trabalha como faxineira, quando as pessoas em volta demonstram a mesma reação aos truques do mágico, ao acender de uma lâmpada e a música da junkebox.

Mas é um mundo ainda encantado, e a pequena Alice segue o mágico para a cidade, com a ilusão de que o homem que segue é capaz de conseguir tudo com seu poder. Enternecido com a menina, o artista a acolhe, e acaba por apresentá-la a um mundo distinto, de carros velozes, de mulheres em vestidos, sapatos e hábitos refinados, de movimento, aceleração. Uma realidade onde os “artistas da inocência” passam a ocupar um lugar cada vez mais marginal, perdendo o público (as novas gerações) e seus aplausos para as bandas de rock e as novas tecnologias do entretenimento. Nessa situação, a necessidade de encontrar outro lugar, longe dos palcos, onde seus talentos sirvam, o desemprego, o alcoolismo e até mesmo o suicídio são os temas que pintam o quadro triste de suas vidas. O mágico tenta, com todo esforço e no limite que a sua habilidade de iludir e sua parca renda permitem, prolongar a ilusão da menina. Entretanto, o véu de sua inocência vai aos poucos cedendo ao encanto da urbe, até o seu ato final – a descoberta do amor.

Tomando como matéria-prima o roteiro do célebre Jacques Tati (cineasta francês autor de comédias inesquecíveis, que foi uma das principais influências da geração de Chabrol, Truffaut, Godard, Rohmer), Sylvain Chomet dirige uma animação de extrema sensibilidade, celebrando o cinema ao contar uma estória por imagens (as falas são quase inexistentes), além da belíssima trilha sonora, que compõe sem excessos a narrativa. No entanto, a celebração do cinema em sua essência não lhe furta à constatação de que a “sétima arte” é um dos frutos dessa modernidade, na cena do espanto do mágico ao encontrar um projeção numa sala que antes recepcionava seus truques.

Uma inocência perdida, de um mundo que perdemos e sem chance de voltar atrás. Um filme onde o singelo serve ao espetáculo, encantando. Milhões de aplausos ao apagar das luzes.

domingo, 14 de março de 2010

Uma crítica afetada pela transferência


Filme: 500 dias com ela ((500) days of summer)
Diretor: Marc Webb
Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber
País: EUA
Ano: 2009

Já li muitas críticas sobre 500 dias com ela, e a sua quase totalidade é composta por uma postura de desaprovação ao filme. O cerne das críticas fundavam-se no abuso dos clichês e referências do filme , que em sua tentativa de identificar-se ao cinema alternativo bem-sucedido - filão do qual temos como exemplos recentes Pequena Miss Sunshine e Juno - acabaria por mostrar-se inconsistente.

Não que desaprove totalmente alguns argumentos dos críticos. Sim, existe um certo abuso de clichês, um show de citações que vão de A Primeira Noite de um Homem ao Sétimo Selo, passando por Acossado. Mas não é isso o mais importante, o que faz desse filme deveras especial. Na verdade, é muito difícil colocar-me na posição de crítico diante desse filme. Houve uma transferência - no sentido psicanalítico do conceito - que me afetou de forma inevitável. Portanto, não há como escrever sobre ele sem levar em conta essa afetação.

Voltemos à sinopse: Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt), um acomodado escritor de cartões, se apaixona por Summer Finn (e a do título original) (Zooey Deschanel), a nova funcionária da empresa em que trabalha. Ele acredita em todos os clichês sobre o amor, como diz na entrada, influenciado pelo triste música pop britânica e pela má compreensão de A Primeira Noite de um Homem. Ela, não acredita no amor, e somente ama a beleza de seus longos cabelos negros e a facilidade com que consegue cortá-lo, sem sentir nada, anunciando assim sua dificuldade em criar vínculos, ou sua facilidade em desfazê-los. A estória do filme é a estória desse encontro, da idealização à realidade, e o percurso de um luto.

O narrador em off anuncia logo de saída: “essa não é uma estória de amor”. Zooey Deschanel e Joseph Gordon-Levitt dão o tom certo aos seus personagens, a primeira emprestando sua beleza digna de Jean Seberg e o seu ar misterioso à protagonista (o que não é preciso muito: a câmera parece gostar muito dela) ; enquanto Joseph consegue passar muito bem a inocência, o entusiasmo e a frustração do início e fim de um grande amor. A linguagem cinematográfica e as referências são usadas com esmero na construção dessa narrativa. Assim como Tom a descreve, apaixonado, e a sua descrição é intercalada com imagens em cortes rápidos de Summer, ilustrando as qualidades enumeradas e ressignificando um recurso utilizado por Godard em Acossado. Outro momento de criatividade aparece também na caracterização do estado encantado de Tom após sua primeira relação sexual com Summer, encantamento traduzido no musical que se transforma o seu trajeto de casa ao trabalho, marcado também pelo engraçado aparecimento do elemento simbólico do passarinho azul, em forma de animação.

Se a narrativa em off dá um certo tom de conto de fadas à estória, fazendo o paradoxo irônico com a “realidade” que se está assistindo; a descontinuidade da estrutura, ora avançando para seu estado de luto, ora voltando para o momento ascendente da relação, marcado pelo número do dia dentre os 500 que marcam a estória, passa ao espectador o sentido de seu desespero e desânimo. Cria-se uma empatia com o desolado, que ainda se encontra investido de sentimentos pela cruel (de minha parte) Summer, que o deixara (aparentemente) sem mais nem menos.

Outro momento de destaque ocorre quando Tom reencontra Summer após algum tempo, pela ocasião do casamento de uma colega de trabalho, e durante o evento, ela o convida para uma festa em sua casa. A distância entre a expectativa criada e a realidade é demonstrada paralelamente, em duas telas, uma contando o desenrolar esperado, outra o efetivo. Em seguida, a desolação do rapaz que enxerga a sua amada se comprometendo com outro é ilustrada numa belíssima cena, onde após sua corrida do apartamento de Summer até a noturna rua, descolore-se o seu redor em preto e branco, e em seguida sua forma enegrecida é envolvida por um ambiente acinzentado, sintonizando-nos ao golpe que acabara de sofrer em suas pretensões.

Não obstante meu total encantamento com este filme, tenho que constatar que ele é fruto de uma identificação, de uma transferência direta, de quem viveu os grandes momentos – com todas as suas idealizações - e frustrações – na qual essas idealizações dão o peso da desilusão – de um grande amor. E se por um lado se sofre devido a empatia com o protagonista; por outro existe no fim dessa estória de luto a mensagem positiva de que, se o amor pode ser efêmero, assim também pode ser a dor; e lidar com esta realidade nos faz encarar com otimismo a possibilidade de um novo recomeço, e as experiências possíveis e sublimes da novidade.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Quando a forma estraga o conteúdo




Filme: Um olhar do paraíso (The lovely bones)
Diretor: Peter Jackson
Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson, baseados em livro de Alice Sebold
País: Nova Zelândia/Reino Unido/EUA
Ano: 2009

Não sou um teórico de cinema. Sou apenas um fã incondicional da sétima arte. E é exatamente nessa condição que me ponho a escrever sobre filmes. Como não sou teórico, me sinto limitado em reflexões sobre questões mais técnicas, estéticas, semióticas, etc. O que me sobra, portanto, livre do compromissos mais convencionais dos especialistas no métier, é a opinião do leigo, talvez do historiador, que se coloca como formador de opinião.

Para escrever sobre "Um olhar do paraíso", vou falar sobre algo primário, que está no cerne da motivação que me leva a sair de casa, pegar um ônibus, e ir ao cinema. Este básico consiste simplesmente em assistir uma boa estória. Desta feita, o básico que um cineasta deve fazer, para me agradar, é utilizar cada fotograma de imagem e som que ele possui e construir uma narrativa a contento. Por vezes, nem ligo para a riqueza ou pobreza de estilo, não é incomum uma comédia romântica boba, com um enredo simples, me emocionar. É óbvio que os grandes do cinema vão além da simples tarefa de contar uma estória, vão fundo na utilização dos planos, do som, etc. Porém, há sempre uma narrativa implícita, com um sentido que force mais ou menos a reflexão do espectador. 

Em tempos de tecnologia digital, 3D, as formas de se contar uma estória se multiplicaram. Porém, às vezes esse excesso de possibilidades parece atrapalhar os autores no trabalho do conteúdo narrativo. É o que ocorre com "Um olhar do paraíso". Fascinado pelas novas gerações de efeitos visuais desde a trilogia "Senhor dos Anéis", Peter Jackson errou feio a mão. Faz da caracterização do "paraíso" do título um amálgama confuso de efeitos que, além de muito entediantes, atravanca e confunde o desenvolvimento da narrativa, deixando-a inclusive num plano secundário.  Estraga assim um argumento com grande potencial dramático e um elenco de grande qualidade, que ante a megalomania imagética do diretor, fazem o que podem, o que infelizmente não é o suficiente para salvar o filme.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Despedida em Las Vegas (EUA/1995)




Título original: Leaving Las Vegas

Diretor: Mike Figgis

Roteiro: Mike Figgis, baseado em livro de John O'Brien

Talvez, na história das diversas artes no século XX, o tema do amor tenha sido o mais exaustivamente abordado. O cinema, arte nascente no século passado, não fugiu a regra, e principalmente graças à indústria norte-americana de produção de filmes, leia-se Hollywood, construiu ao longo das décadas uma concepção idealizada do amor romântico, disseminando-a no imaginário coletivo.

O filme de Mike Figgis se afasta desse estereótipo, tratando o amor em sua expressão-limite: como uma necessidade ante a aspereza da vida. Essa é a principal causa da aproximação entre o alcoólatra Ben Sanderson e a prostituta Sera. A busca do conforto ante o preconceito social conduz o enlace de Ben e Sera, marcada pela aceitação recíproca da vida que levam. Em cena que sela o pacto dessa relação compreensiva, Ben diz à Sera: Vou te dizer agora, estou apaixonado por você. Mas, seja como for, não estou aqui para forçar minha alma perdida para dentro de sua vida. (...) Espero que você entenda que sou uma pessoa que lida muito bem com isso, ou que não quer dizer que sou indiferente ou que não me importo. Me importo. E isso significa que confio e aceito o seu julgamento.

A relação é assim construída, com o preenchimento afetivo e a compreensão mútua se sobrepondo ao sexo. A resignação, ou dependência, de Sera resiste inclusive às eventuais falas ofensivas de Ben, que ocorrem exatamente quando este percebe um envolvimento mais sério. E é quando o julgamento aparece, sobre a forma da pontual preocupação de Sera quanto a saúde de Ben , que a relação estremece de vez, provocando a “traição” sexual de Ben e a sua expulsão da casa da prostituta. Como bem descreve a sinopse do filme, o vício de Ben torna-se tão incontrolável que nem o amor de Sera é capaz de reverter. A percepção dessa censura, que o sentimento impõe, faz Ben se afastar, seguindo o rumo que traçara (ou antes constatara): a morte através da bebida. Os elementos morais convencionais, relacionados ao sexo, por exemplo, aparecem nesse instante, indo de contra ao que a união de ambos representava: a rejeição dos padrões sociais.

A volta de Sera ao moribundo Ben, após episódios seguidos de exclusão e violência no exercício de sua profissão, encerra de forma magnífica o filme, realizando-se através da tão desejada relação sexual, sofrida, quase fúnebre. Muito mais do que um filme sobre alcoolismo, Leaving Las Vegas é um filme sobre amor, mas distante do idealismo consumista de hollywoodiano, um sentimento plenamente realista. Não obstante, distancia-se da concepção de amor pós-romântico atual, em voga em filmes como “Vicky Cristina Barcelona”, que afirma que este só  ocorre quando não realizado. O de Sera e Ben se realiza no limite do possível, do imponderável das necessidades reais afetivas, em reação exatamente à condição existencial de marginalização que cada um vive. E é nesse limite que esse amor é vivido em sua máxima beleza e plenitude, dada a cumplicidade construída na expectativa de ambos: compreensão.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Vício Frenético (EUA/2009)
















Título Original: Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans
Diretor: Werner Herzog
Roteiro: William M. Finkelstein, baseado em roteiro de Zoë Lund, Abel Ferrara, Paul Calderon e Victor Argo.

"This is a government of law, not of men." Eis o lema que aparece  na fachada do palácio de justiça de Port of Call, Nova Orleans. Não obstante, o que Werner Herzog busca mostrar em seu mais recente filme é exatamente que a lei está a mercê dos homens, suas paixões, interesses e vícios,  e estes, por sua vez, nas mãos da fortuna, do acaso.

E é o acaso que leva o protagonista, o detetive Terence Macdonald ao posto de tenente. Ao salvar um prisioneiro do afogamento, ganha a promoção, mas também  um problema nas costas que acaba o levando ao mundo das drogas, primeiramente a partir de analgésicos para as dores crônicas, e depois da cocaína, crack e tudo o mais o que lhe caí nas mãos. A interpretação alucinante de Nicolas Cage dá o tom corretíssimo  à frenética rotina do tenente, que renega toda a moralidade e ética profissional no exercício de sua função, sempre sob efeito das drogas e em busca de mais. A aplicação da lei, o exercício da justiça é submetida às implicações de seu agente investigador, que por sua vez é refém dos caminhos sem rumo que o vício lhe coloca e aos seus próximos.

Assim,  é pelos caminhos tortuosos da vida dos homens, e não pelo caminho reto e ideal da função policial, que a ordem e justiça se realiza em Port of Call, ou em qualquer outro lugar. Logo, acima do governo da lei, impera o dos homens, e principalmente o que há de irracional em suas relações.