Título original:
La pianiste
País de
Produção: Áustria/França
Ano: 2000
Diretor: Michael Haneke
Roteiro: Michael
Haneke, adaptado do livro The piano
teacher, de Elfriede Jeliek.
Não posso negar que
tenho uma predileção por determinados tipos de filme. Não é uma questão de
gênero cinematográfico, mas sim de percepções sobre o ser humano. Gosto
daqueles filmes que me fazem revirar o estômago, que representam o que há de
violento, imoral, cruel ou perverso nas relações humanas. Não acredito que
fazer esse tipo de cinema implique necessariamente em pregar-se uma crença na
natureza má do homem (embora cineastas como Lars Von Trier afirmem possuí-la),
mas um esforço de compreensão da complexidade dos comportamentos sociais. Portanto,
mesmo que por um viés mais espinhoso, representa uma reflexão profunda do ser
humano.
Dentro deste tipo de
cinema, acredito não haver, na atualidade, cineasta como o austríaco Michael
Haneke. Representar a perversão e a irracionalidade dos comportamentos humanos
é praticamente a razão de ser seu cinema, que com sua forma de filmar, abusando dos
planos longos e por vezes quase estáticos, desnuda de maneira quase sádica ao
expectador.
Em La pianiste (traduzido para o público brasileiro como “A professora de piano”), Haneke nos
apresenta a estória de Érika Kohut, uma
professora de piano de meia idade, para refletir a relação entre a repressão,
seja aquela oriunda da família ou de uma profissão que exige o limite extremo
da dedicação, e a perversão moral e sexual. Bem sucedida num ofício que exige
grande sacríficio desde a tenra idade, a protagonista divide o apartamento com
sua mãe, que a censura nos mínimos detalhes de sua vida. Embora reaja às humilhações
da genitora, chegando por vezes às vias de fato, Érika aceita a situação,
demonstrando eventualmente arrependimento por suas reações. A ausência de qualquer
expressividade afetiva, a altivez arrogante no trato com os alunos e os colegas
de profissão, a rigidez e a violência do seu olhar e a economia austera dos
gestos são aspectos marcantes na caracterização da protagonista, interpretada
magistralmente por Isabelle Huppert.
A violência moral
sofrida em casa é reproduzida no ambiente de trabalho pela professora, que
ministra suas aulas com extrema rigidez, chegando às raias da humilhação na exigência
da entrega de seus alunos ao piano. A repressão moral familiar e os sacrifícios
profissionais engendram na protagonista uma série de comportamentos sexuais desviantes,
marcados pelo masoquismo, o voyeurismo e a escatologia. Na busca pelo prazer, a
professora mutila sua vagina com uma lâmina, frequenta cabines de filmes
eróticos nas quais excita-se sorvendo o sêmen deixado por outros
frequentadores, urina enquanto assiste aos casais se agarrando no drive-in.
O caráter perturbador
deste comportamento sexual fica latente quando se depara com Walter Klemmer
(Benoit Magimel), um jovem e talentoso pianista que admirado com a execução de
Schubert da professora, se apaixona e busca aproximar-se. Apesar da rejeição inicial,
em que desmerece seu talento e refrata rispidamente suas investidas, Érika vai
desenvolvendo aos poucos seu desejo pelo belo rapaz, expressando-o de forma violenta
ao, por exemplo, buscar ferir uma aluna por quem Klemmer demonstrou carinho. Esta
ação é exemplar também de sua crueldade, uma vez que a aluna ferida é
apresentada como uma ameaça a supremacia do talento da professora. A revelação
do interesse recíproco entre Érika e Walter marca o início de um jogo sádico de
repulsa e atração, de dominação e submissão, no qual o jovem vai se envolvendo
até perder o controle.
La
pianiste é, sem sombra
de dúvidas, um prato cheio para análise do comportamento humano. Se neste filme,
Michael Haneke explora no microcosmo de um indivíduo o desenvolvimento de
comportamentos “patológicos” condicionados pela repressão moral – constituindo-se
por isso um excelente objeto de análise e reflexão para aqueles que dominam os
instrumentos teóricos da psicanálise e da psicologia – apenas faz parte de uma
obra cinematográfica maior e ainda em desenvolvimento, no qual busca-se
perceber a perversidade e violência a partir de diversas perspectivas (como em A Fita Branca, onde dá maior atenção
a reprodução cultural da violência simbólica; ou em Caché, onde busca
compreender a violência pelo lado das relações de dominação econômica).
Para este cineasta, expor a crueza do real, no que há
de mais incômodo e chocante, é sua função. O que fazer com isso fica por conta
do expectador. Mas não existe
transformação onde há conforto.





